Tiradentes: nada contra
Última atualização (Qui, 23 de Abril de 2009 13:26) Escrito por Márcio Bezerra Qua, 22 de Abril de 2009 01:23
A comemoração de datas nacionais é comum ao calendário de vários povos desde tempos idos. De certa forma tem sua importância, pois garante às gerações vindouras o conhecimento do seu passado, de seus antepassados, bem como mantém acesa as tradições que fortificam a história de povos e nações. Dentro dessa ótica, é a garantia do sentimento nativista que nos remete à ideia de pátria.Obviamente, alguns dos fatos históricos tão conhecidos por nós acerca de personagens, não seriam tão glamorosos, se fossem vistos à luz de situações meramente factuais. Ora, o que se pensar de Um Dom Pedro I montando às costas de uma mula, com roupa de campanha, proclamando a independência nacional? Ou mesmo um Dom João VI, que morria de medo de caranguejos, à volta de balaios, para tomar seus banhos de mar? Havemos de convir, que não seria de bom alvitre expor tais pândegas.Dessa forma, a criação de uma “vestimenta” para os nossos personagens-título, nos garante certo ar de respeito e dignidade àqueles que compõem a nossa História Nacional. Cria-se uma memória coletiva de situações que, em última análise, formatam o arcabouço da nossa moral e ética cidadã. Por assim dizer, alguns salamaleques não interferem no entendimento lato das coisas.Na formação da nossa historiografia, alguns dos atores que ganharam o status de herói, se consubstanciaram no nosso período republicano, a partir de 1889 (Duque de Caxias, Almirante Tamandaré, dentre outros). Não por um acaso, muitos desses ou eram militares ou estiveram envolvidos em escaramuças belicosas. Não podemos esquecer que o surgimento da nossa república nasceu e se formatou dentro dos quartéis, levando a responsabilidade maior de governar o país, aos oficiais que, por sua vez, implantaram as instruções da caserna à vida pública.Em tempo, devemos alertar que essa não é unicamente uma prerrogativa do Brasil. A formação das repúblicas na América Latina estiveram a cargo, quase que invariavelmente, de dirigentes dos pelotões e armas (San Agustín, Simon Bolívar, Emiliano Zapata, etc.). Assim, tão ricamente ilustrado no nosso cancioneiro pelos arautos contemporâneos, a exemplo de Garcia Marques ou de Eduardo Galeano, respectivamente em suas obras: “Cem Anos de Solidão” e “As Veias Abertas da América Latina”, onde, por vezes, alguns desses notórios líderes aparecem nas entrelinhas ou como “pano de fundo” de romances ou de odes poéticos.No caso brasileiro, um desses personagens foi Joaquim José da Silva Xavier, eternizado por nós como Tiradentes. Seria aqui desnecessário, além do que enfadonho, nos determos às minúcias da vida do mesmo, com risco de cairmos no lugar comum dos relatos históricos. Assim, pois, já que os livros têm essa missão, vamos nos deter na análise da importância das comemorações dessa data para a Nação.Como mencionado anteriormente, alguns dos mitos nacionais foram forjados num período de mudanças, entre um regime de governo, para um regime de governantes. Nas primeiras décadas da jovem república, se confrontaram o positivismo de August Comte, defendido pelos jovens oficiais que ajudaram a derrubar a monarquia, por um lado, e pela forte e organizada oligarquia cafeicultora paulista, do outro, defensora de uma descentralização administrativa, seguindo os rastros da República norte-americana de Thomas Jefferson. Em meio a tais tergiversações, em princípio, saiu vencedora a facção milite, determinada à instaurar uma ideia de nação, dentro de moldes da ordem e da disciplina. Destarte, urgia a necessidade de criar no cidadão o sentido de nação-pátria. Para tanto, medidas políticas, econômicas, religiosas e educacionais foram implementadas junto às Instituições Nacionais. Vários artistas foram contratados para desenvolverem produções que se remetessem a fatos históricos emblemáticos. Um desses foi Pedro Américo. Ao artista, foi delegada a responsabilidade de desenvolver alguns momentos da nossa história, a exemplo da Independência do Brasil, ou de pessoas, como fora o caso de Tiradentes. Pela primeira vez, surgia o estereótipo que sedimentou o nosso censo comum. Um homem esguio, de aparência firme, de olhar transcendente e com um forte ar de confiança. Mas, não só a imagem estética seria importante, se fazia necessário para compor a indumentária de um herói, outros elementos tão ou mais importantes - os seus valores. Embora historiadores já tenham estudado amiúde a figura de Joaquim José, em nenhuma de suas obras monográficas fica claramente definida se de fato era assim a figura desse jovem alferes. Entretanto, o que afirmamos anteriormente, é que determinada liberdade de expressão é combustível necessário para lucubrações poéticas. Porém, sabemos que a morte de Tiradentes, no sentido estritamente histórico, é o ápice dos acontecimentos políticos e econômicos que se desenrolaram em Vila Rica (atual Ouro Preto), nas Minas Gerais, em finais do século XVIII, conhecidos como Inconfidência Mineira. O movimento, que ganhou ares intelectuais, dada a participação de poetas como Cláudio Manuel da Costa ou Tomás Antônio Gonzaga, conferiu certo maneirismo academicista à revolta, que tinha em seu cerne questões bem mais prosaicas, como a cobrança de impostos atrasados (o quinto) pela Corte Portuguesa. O desenrolar dos fatos culmina com o enforcamento e morte daquele que seguramente carecia de “padrinhos” que o representasse frente aos magistrados.Nessa ótica, os dirigentes da República Brasileira transformaram um esquecido alferes de cavalaria em herói nacional, eternizando a data de sua execução, 21 de abril, em data magna do nosso calendário de comemorações. Partindo da premissa de que uma obra historiográfica depende diretamente da fidedignidade dos fatos, além da necessidade de isenção por parte do historiador, a História incorre no risco das vontades alheias, dos interesses políticos e das idiossincrasias pessoais. Afinal de contas, sendo produzida por seres humanos, é passível de interpretações.Mas, porque a partir de um fato tão provinciano se cria um herói? Se utilizarmos a mesma lógica (a cobrança de impostos, por exemplo), no mesmo lugar, Vila Rica, em 1720, Felipe dos Santos, também era morto e esquartejado por razões semelhantes. Sem querer desmerecer a importância do movimento inconfidente, uma revolta de vulto até maior (sob o ponto de vista dos envolvidos, cerca de 2.000 pessoas) já havia eclodido anteriormente.E o que dizer do primeiro levante, cronologicamente falando, dos movimentos nativistas do Brasil, o de 1684, no Maranhão, A Revolta de Beckman, quase esquecido no resto país? Ou mesmo de Maria Quitéria, que no período das chamadas Guerras da Independência, entre 1822 a 1825, fazendo parte do popularmente cognominado Batalhão dos Periquitos, lutou na Bahia bravamente, pela expulsão das fortes tropas portuguesas, capitaneadas por Madeira de Melo? E ainda, a importância na formação do sentido nacional de figuras como: Frei Caneca, Cipriano Barata, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, a lista é infinda.Portanto, não é uma crítica ao personagem Tiradentes, mas a data que esse representa para o ideário nacional. Qual de fato, foi a importância do 21 de abril para o nosso sentido de Federação? Que outros tantos personagens históricos, de relevante importância para o país, mas relegados a uma condição “inferior” (talvez isso seja motivo de uma nova discussão), não mereceram uma data comemorativa? Quantos outros atores sociais, que não tiveram o mesmo espaço da mídia, tiveram importância na sedimentação dos nossos valores nacionais e nós simplesmente desconhecemos? Somos um povo onde a educação transmitida pela oralidade se fez presente, desde a chegada do colonizador. O conhecimento erudito, da elite branca, se responsabilizou pela criação de valores comuns, que por outra medida, ganhou características específicas de miscigenação e sincretismo. Da mesma forma, o povo absorveu e transformou a normas cultas popularizando-as. Mas, as mesmas normas escritas tiveram papel determinante sobre uma população semi-analfabeta que serviu muito bem à interesses do macro-sistema. Dessa forma, se cometeu um crime de lesa-pátria todas as vezes que não se amalgamou à nossa cultura também personagens populares, a exemplo de zumbi, só festejado por movimentos negros. Então, não esperamos que se inclua novas datas aos feriados comemorativos no país, não almejamos uma revisão de datas, o senso comum já se incumbiu de sedimentar as já existentes. Mas, que tal um dia nacional do povo? De preferência sempre aos sábados ou domingo? Seria uma ideia a ser pensada.



